Crédito
Taxa de esforço: o número que decide se lhe emprestam
Como se calcula, que patamares os bancos usam, e porque é que ter margem importa mais do que caber no limite.
Atualizado em 22 de agosto de 2026 · Leitura de 11 min · Fontes indicadas no fim
Em duas linhas
É a percentagem do rendimento líquido do agregado comprometida com prestações de crédito. Desde 1 de agosto de 2026, o Banco de Portugal recomenda que não ultrapasse os 45% — antes eram 50%.
Como se calcula
Divide-se o total das prestações mensais de crédito pelo rendimento líquido mensal do agregado, e multiplica-se por cem.
Exemplo: rendimento líquido de 2.000 €, com 600 € de prestação da casa e 150 € do carro. São 750 € de prestações sobre 2.000 € — uma taxa de esforço de 37,5%.
O que entra: todas as prestações de crédito — habitação, automóvel, pessoal, consolidado, cartões com pagamento faseado. E também a prestação do crédito que está a pedir, não apenas os que já tem.
O que não entra: renda de casa, água, luz, alimentação, escola. São despesas, e pesam na sua vida — mas não entram nesta fórmula. É uma limitação real do indicador, que discutimos mais abaixo.
O limite mudou em agosto de 2026
Esta é a alteração mais relevante dos últimos anos nesta matéria, e ainda não chegou a muitos artigos que encontrará por aí.
O Banco de Portugal adotou uma nova Recomendação Macroprudencial, que substitui a de 2018, e o limite da taxa de esforço desceu de 50% para 45%. Aplica-se aos contratos avaliados a partir de 1 de agosto de 2026, e abrange tanto o crédito à habitação como o crédito ao consumo.
| Regra | Antes | Desde agosto de 2026 |
|---|---|---|
| Limite da taxa de esforço (DSTI) | 50% | 45% |
| Margem de exceções por instituição | 15% | 10% do crédito de cada semestre |
| Prazo máximo, até 35 anos de idade | 37 anos | 40 anos |
| Prazo máximo, acima de 35 anos | 35 anos | 35 anos |
Há aqui uma troca deliberada: o limite da taxa de esforço apertou, mas os jovens até aos 35 anos ganharam três anos de prazo — o que baixa a prestação e compensa parte do aperto.
O teste de esforço que o banco é obrigado a fazer
Um pormenor que quase ninguém conhece e que muda a conta: no cálculo do DSTI, as instituições são obrigadas a aplicar um teste de stress que simula uma subida das taxas de juro.
Ou seja, o banco não calcula a sua taxa de esforço com a Euribor de hoje. Calcula-a com uma taxa mais alta, para verificar se aguentaria uma subida. É por isso que a sua conta pode dar 38% e a do banco dar mais.
Vale a pena fazer o mesmo antes de ir ao banco. O simulador de crédito à habitação mostra a prestação com variações da Euribor até dois pontos percentuais acima.
Onde está a média portuguesa
Para contexto: a taxa de esforço média no crédito à habitação em Portugal ronda os 29,6%. No percentil 90 — os 10% de créditos com maior esforço — ultrapassa os 40%.
Isto ajuda a situar-se. Se está nos 30%, está na média. Se está nos 42%, está no topo da distribuição, e foi precisamente esse grupo que motivou o aperto da regra.
O erro de pensar que o objetivo é caber no limite
Muita gente calcula a taxa de esforço para saber quanto consegue pedir. É a pergunta errada.
Uma taxa de esforço de 44% cabe no limite e, ainda assim, deixa-o sem margem para nada. Basta uma avaria ou uma redução de rendimento para o orçamento deixar de fechar. O limite do supervisor existe para proteger a estabilidade do sistema financeiro, não a sua qualidade de vida — são objetivos diferentes, e o segundo é da sua responsabilidade.
Pergunta melhor: com esta prestação, quanto me sobra ao fim do mês depois de tudo pago? Se a resposta for "nada", a taxa de esforço estar dentro do limite não muda o problema.
Em taxa variável, calcule com juros mais altos
Se o crédito é de taxa variável, a taxa de esforço de hoje é a de hoje. Se a Euribor subir dois pontos percentuais, a prestação sobe e a taxa de esforço sobe com ela.
Vale a pena fazer a conta com uma taxa acima da atual e ver se ainda aguenta. O simulador de crédito à habitação mostra essa tabela de sensibilidade.
Como baixá-la, por ordem de eficácia
- Liquidar créditos pequenos. Um crédito pessoal de 8.000 € com 200 € de prestação pesa tanto na taxa de esforço como 200 € da casa — mas custa muito menos a eliminar.
- Aumentar a entrada. Menos capital financiado, menor prestação.
- Acrescentar um titular. Soma-se o rendimento. Mas soma-se também a responsabilidade, com todas as consequências.
- Alargar o prazo. Baixa a prestação e a taxa de esforço, mas aumenta o custo total. Funciona para aprovar; não funciona para poupar.
- Negociar o spread. Menos juros, menor prestação.
Antes de pedir crédito, peça isto
O Mapa de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal é gratuito e mostra tudo o que deve, em todas as instituições. O banco vai consultá-lo de qualquer forma — mais vale saber o que lá está antes de se sentar à mesa.
É frequente aparecerem créditos esquecidos, cartões com plafond associado, ou avales que continuam a contar.
Erros comuns
- Calcular sobre o rendimento bruto em vez do líquido.
- Esquecer cartões de crédito e créditos pequenos.
- Não incluir a prestação do crédito que está a pedir.
- Calcular só com a taxa de juro atual, num crédito de taxa variável.
- Tratar o limite do banco como objetivo, em vez de teto.
- Esquecer os seguros obrigatórios, que saem todos os meses.
Perguntas frequentes
Como se calcula a taxa de esforço?
Divide-se o total das prestações mensais de crédito pelo rendimento líquido do agregado. Com 2.000 € de rendimento e 750 € de prestações, a taxa de esforço é de 37,5%.
Qual é a taxa de esforço máxima em 2026?
O Banco de Portugal recomenda um limite de 45%, desde 1 de agosto de 2026. Antes eram 50%. Cada instituição pode conceder até 10% do crédito de cada semestre acima desse limite, ao abrigo da margem de exceções.
O banco calcula a taxa de esforço com a taxa de juro atual?
Não. As instituições são obrigadas a aplicar um teste de stress que simula uma subida das taxas de juro. Por isso a conta do banco pode dar mais do que a sua, se usou a Euribor de hoje.
Qual é a taxa de esforço média em Portugal?
Ronda os 29,6% no crédito à habitação. Nos 10% de créditos com maior esforço ultrapassa os 40% — e foi esse grupo que motivou o aperto da regra em 2026.
A renda de casa entra na taxa de esforço?
Não. Só entram prestações de crédito. É uma limitação real do indicador: quem paga renda tem o mesmo peso no orçamento e não aparece nesta conta.
Como baixar a taxa de esforço?
Por ordem de eficácia: liquidar créditos pequenos, aumentar a entrada, acrescentar um titular, alargar o prazo ou negociar o spread. Alargar o prazo aprova, mas aumenta o custo total.
Onde confirmar
- Banco de Portugal — comunicado da nova Recomendação Macroprudencial, que substitui a de 2018 e desce o limite do DSTI para 45%.
- Portal do Cliente Bancário — simulador oficial e informação sobre crédito.
- Mapa de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal.
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